O Homem Sem a Camera


TEXTO APRESENTADO AO 16º SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Fevereiro 3, 2009, 4:15 pm
Arquivado em: Mac, SIICUSP 2008 | Tags: , ,

Introdução

A pesquisa de iniciação científica em questão é um seguimento do projeto de longa duração do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP), que visa documentar e catalogar o segmento de cerca de 1000 fotografias da Coleção Edemar Cid Ferreira que está sob a responsabilidade do Museu. Esta apresentação cobre o curto período de 5 meses de trabalho, de Maio a Setembro de 2008, pois trata-se da substituição de um bolsista anterior vinculado ao projeto. As atividades de documentação desenvolvidas no período tiveram como objetivo dar suporte à curadoria e montagem da exposição Fotógrafos da Vida Moderna, realizada entre 10 de Junho e 28 de Setembro de 2008 no espaço do MAC-Ibirapuera.

Breve Histórico da Coleção

A guarda provisória desta coleção é garantida a Universidade de São Paulo em dezembro de 2005 por decisão da 6ª Vara Criminal de São Paulo. Decretado em 20 de Setembro do mesmo ano, o processo de falência do Banco Santos retira de seu ex-proprietário Edemar Cid Ferreira, o direito de ser “depositário judicial” de sua coleção de arte. Está é composta de diversos tipos de produções artísticas, pinturas, gravuras, instalações, fotografias, dentre outras adquiridas pelo até então proprietário do banco e presidente eleito da fundação Bienal.

A distribuição das obras foi feita entre sete os museus públicos da cidade de São Paulo, os quais receberam aquelas que melhor se adequavam ao perfil dos respectivos acervos. Para MAC são direcionadas 1.566 obras, onde 1427, cerca de 91% do total, são fotografias. O trabalho preliminar de inventário feito pela equipe do museu junto a Profª Drª Helouise Costa, responsável pelo acervo fotográfico, identificou 7 núcleos temáticos possíveis para a coleção, sendo eles:

1) Fotografia do século XIX;

2) Fotografia humanista francesa das décadas de 30 e 40;

3) Fotografia japonesa;

4) Fotografia moderna;

5) Fotografia de moda;

6) Fotografia documental;

7) Fotografia contemporânea.

O espaço da Cid Collection enquanto coleção particular, recontextualiza os objetos dentro de um universo próprio, com suas dinâmicas, funções específicas e uma coerência segundo as expectativas de seu idealizador. As obras foram destinadas em um primeiro momento à realização de grandes exposições, onde eram apresentadas sem relação com o seu contexto original de produção, onde a harmonia era criada em padrões muitas vezes alheios a relação da obra com seu contexto original de produção.

Em relação a esse aspecto, o trabalho de documentação entra para suprir lacunas de informações que garantam a integridade das coleções e arquivos, considerando também o seu circuito original de produção e consumo, para referenciar assim futuras pesquisas, sejam documentais ou temáticas. A documentação é entendida então como um procedimento técnico pertencente a um processo mais amplo dentro do Museu, que se constitui na base da pesquisa e da difusão do acervo.

Atividades Realizadas

No momento inicial da pesquisa foi necessário lidar com duas frentes para garantir em seguida o suporte a primeira mostra com as obras da CID COLLECTION: 1) A leitura sistemática de bibliografia especializada na área de museu e história da fotografia, além da consulta ao material sobre a história da coleção e seu idealizador. Foram consultadas as obras A Fotografia Moderna no Brasil (2004) e Museu de Arte contemporânea da Universidade de São Paulo, ambas referentes a história da instituição da qual ingressava e da idéia de “moderno” no campo da fotografia. Além destas fontes foi feita consulta de todo material de imprensa organizado anteriormente. 2) Acompanhamento do trabalho de seleção final das fotografias da exposição, que contemplou também o trabalho junto ao restauro, exposeografia, montagem e curadoria.

Focado em torno de um eixo temático, o Modernismo Fotográfico, a pesquisa documental destacou um momento peculiar da história da fotografia, onde dada a relação existente dos fotógrafos com o processo de modernização e de muitos deles entre si, ocorre uma visível constante de repetição dos temas abordados, como a cidade, o retrato do artista, o nu e o movimento.

Os esforços voltados que cito, consistem em dar suporte a exposição através de pesquisa biográfica sobre os fotógrafos e sobre suas obras, pesquisa sobre as fotografias selecionadas para confirmação e/ou descoberta da autoria e dos dados de identificação (título, data, técnica e série quando necessário) e levantamento bibliográfico complementar para o trabalho de curadoria.

Uma problemática estabelecida para o trabalho de documentação é como registrar certas informações muitas vezes relativas e específicas a outros setores da instituição, mas necessárias para uma compreensão global da coleção.

Essa ampliação do trabalho de documentação possibilitou também uma maior concentração de informações técnicas referentes a exposição e suas obras, para assim ampliar o banco de informações e a pesquisa e preparação de material áudio-visual exibido no espaço expositivo. O conteúdo deste consistia em apresentar diversos trabalhos de alguns fotógrafos da seleção, no contexto de sua circulação, principalmente ligados a imprensa de época.

O envolvimento em todas as etapas da preparação e montagem de uma exposição museológica fechou um ciclo de aprendizado e mostrou a necessidade de se conjugar o trabalho técnico com a pesquisa acadêmica para o entendimento adequado de uma coleção. Para além do período de permanência da exposição as atividades relacionadas continuam, é necessário realizar o registro da disposição final das obras no espaço expositivo, buscando documentar a a proposta curatorial. Esta documentação em específico serve no futuro para pensar a história do objeto fotográfico e da coleção como um todo.

A coleta e o arquivamento dos matérias publicados na imprensa também não se encerra com o período de exposição, já que deve incluir também documentos específicos sobre a coleção, os fotógrafos que a integram e suas obras. Todo novo documento alimenta as pastas e os dados ampliam o banco de informações que está se formando. Como último ponto a ser tratado aqui, vale destacar a exposição em si, trazendo algumas características, números e conclusões alcançadas graças a todo o caminho percorrido.

Exposição Fotógrafos da Vida Moderna

Resultado maior de todo esse trabalho pode ser verificado na exposição Fotógrafos da Vida Moderna. A exposição contava com 154 fotografias de 53 fotógrafos, nacionais e internacionais, dentre eles Geraldo de Barros, Thomas Farkas e German Lorca, considerados pioneiros da estética moderna na fotografia brasileira e no âmbito internacional contamos com Aleksandr Rodtchenko cuja a obra Moça com leica (1934) foi selecionada pela curadoria como obra emblemática da exposição por conta de seu valor representativo da estética moderna. Além destes, estavam presentes obras de André Kértesz, Brassaï, Henri Cartier-Bresson, já consagrados no circuito das artes e outros menos iconizados como Weegee, Kineo Kuwabara e Ormond Gigli.

A exposição contou também com uma série de trabalhos experimentais, os consagrados fotogramas de Man Ray, intitulados pelo autor como Rayogrammas, tiveram um espaço de destaque em virines, assim como os estudos de movimento de Etienne Jules-Marey. O fotograma consiste em produzir uma imagem fotográfica sem o uso do aparelho: dispõe-se objetos sobre papel sensibilizado para em seguida expor a luz e revelar. O resultado são formas puras registradas em tom claro que contrastam com o fundo escuro, propondo assim uma fotografia aproximada do abstracionismo. Já os estudos de movimento são parte de um experimentalismo nascido no século XIX que busca compreender as variações corporais de homens e animais em um certo trajeto.

Uma outra sala do espaço foi dedicada às fotomontagens de dois autores nacionais Athos Bulcão, conhecido por seus trabalhos com murais em Brasília e Jorge de Lima, poeta brasileiro que produziu montagens de influência surrealista para ilustrar um de seus livros. As obras de Jorge de Lima foram cedidas através de empréstimo pelo Instituto de Estudos Brasileiros que abarca essa coleção em seu acervo Mario de Andrade.

O trabalho de documentação agregado a exposição temática valorizou o entendimento de um momento peculiar da história da fotografia, no qual ocorre a redefinição do papel social da arte e da relação do fotógrafo com seu objeto. Helouise Costa no texto de abertura da exposição ressalta essa característica: “Não se tratava de produzir imagens destinadas apenas à contemplação. A fotografia passou a ser entendida prioritariamente como imagem pública de consumo, produzida para circular na forma impressa. É o momento da consolidação de um mercado para a fotografia e da profissionalização da atividade de fotógrafo. Documentar deixa de ser uma tentativa de capturar o real para tornar-se uma atividade de interpretação.

Chegando assim a um fechamento onde vale destacar que as obras presentes nesta coleção revelam, além do experimentalismo modernista, a relação do fotógrafo moderno com o mercado por meio do fotojornalismo e da fotografia de moda, rompendo por essa via a dualidade documentação e experimentação, fotografia artística e fotografia aplicada.

Trazer a público, por meio da difusão do acervo, estes bens culturais, foi o compromisso assumido tanto pela Universidade de São Paulo, quanto pelo MAC que a integra. Todo trabalho só se torna válido a partir do momento em que atividades técnicas e acadêmicas, de pesquisa e documentação, se relacionem de uma forma solidária, visando atender satisfatoriamente às diversas demandas, institucionais, acadêmicas e pedagógicas. O fim ideal para todo trabalho de documentação é proporcionar o acesso à informação e que essa seja útil para produção de conhecimento.